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Os
100 acontecimentos mais importantes
da história do cristianismo

64
O incêndio de Roma
Talvez o cristianismo não se expandisse de maneira tão
bem-sucedida, caso o Império Romano não tivesse
existido. Podemos dizer que o império era um tambor de
gasolina à espera da faísca da fé cristã.
Os elementos unificadores do império ajudaram na expansão
do evangelho. Com as estradas romanas, as viagens ficaram mais
fáceis do que nunca. As pessoas falavam grego por todo
o império e o forte exército romano mantinha a paz.
O resultado da facilidade de locomoção foi a migração
de centenas de artesãos, por algum tempo, para cidades
maiores — Roma, Corinto, Atenas ou Alexandria — e
depois se mudavam para outro lugar. O cristianismo encontrou um
clima aberto à religiosidade. Em um movimento do tipo Nova
Era, muitas pessoas começaram a abraçar as religiões
orientais — a adoração a Isis, Dionisio, Mitra,
Cibele e outros. Os adoradores buscavam novas crenças,
mas algumas dessas religiões foram declaradas ilegais por
serem suspeitas de praticar rituais ofensivos. Outras crenças
foram oficialmente reconhecidas, como aconteceu com o judaísmo,
que já desfrutava proteção especial desde
os dias de Júlio César, embora seu monoteísmo
e a revelação bíblica o colocassem à
parte das outras formas de adoração.
Tirando plena vantagem da situação, os missionários
cristãos viajaram por todo o império. Ao compartilhar
sua mensagem, as pessoas nas sinagogas judaicas, nos assentamentos
dos artesãos e nos cortiços se convertiam. Em pouco
tempo, todas as cidades principais tinham igrejas, incluindo a
capital imperial.
Roma, o centro do império, atraía pessoas como um
ímã. Paulo quis visitar Roma (Rm 1.10-12), e, na
época em que escreveu sua carta à igreja romana,
vemos que ele já saudava diversos cristãos romanos
pelo nome (Rm 16.3-15), talvez porque já os tivesse encontrado
em suas viagens.
Paulo chegou a Roma acorrentado. O livro de Atos dos Apóstolos
termina narrando que Paulo recebia convidados e os ensinava em
sua casa, onde cumpria pena de prisão domiciliar, ainda
que, de certa forma, não vigiada.
A tradição também diz que Pedro passou algum
tempo na igreja romana. Embora não tenhamos números
precisos, podemos dizer que, sob a liderança desses dois
homens, a igreja se fortaleceu, recebendo tanto nobres e soldados
quanto artesãos e servos.
Durante três décadas, os oficiais romanos achavam
que o cristianismo era apenas uma ramificação do
judaísmo — uma religião legal — e tiveram
pouco interesse em perseguir a nova "seita" judaica.
Muitos judeus, porém, escandalizados pela nova fé,
partiram para o ataque, tentando inclusive envolver Roma no conflito.
O descaso de Roma pela situação pode ser visto no
relato do historiador romano Tácito. Ele relata uma confusão
entre os judeus, instigada por um certo "Chrestus",
ocorrida em um dos cortiços de Roma. Tácito pode
ter ouvido errado, mas parece que as pessoas estavam discutindo
sobre Christos, ou seja, Cristo.
Por volta de 64 d.C, alguns oficiais romanos começaram
a perceber que o cristianismo era substancialmente diferente do
judaísmo. Os judeus rejeitavam o cristianismo, e cada vez
mais pessoas viam o cristianismo como uma religião ilegal.
A opinião pública pode ter começado a mudar
em relação à fé nascente até
mesmo antes do incêndio de Roma. Embora os romanos aceitassem
facilmente novos deuses, o cristianismo não estava disposto
a partilhar a honra com outras crenças. Quando o cristianismo
desafiou o politeísmo tão profundamente arraigado
de Roma, o império contra-atacou.
Em 19 de julho, ocorreu um incêndio em uma região
de trabalhadores de Roma. O incêndio se prolongou por sete
dias, consumindo um quarteirão após o outro dos
cortiços populosos. De um total de catorze quarteirões,
dez foram destruídos, e morreram muitas pessoas.
A lenda diz que o imperador romano Nero "dedilhava"
um instrumento musical, enquanto Roma era destruída pelas
chamas. Muitos de seus contemporâneos achavam que Nero fora
o responsável pelo incêndio. Quando a cidade foi
reconstruída, mediante o uso de altas somas do dinheiro
público, Nero se apoderou de grande uma extensão
de terra e construiu ali os Palácios Dourados. O incêndio
pode ter sido a maneira rápida de renovar a paisagem urbana.
Objetivando desviar a culpa que recaíra sobre si, o imperador
criou um conveniente bode expiatório: os cristãos.
Eles tinham dado início ao incêndio, acusou o imperador.
Como resultado, Nero jurou perseguir e matar os cristãos.
A primeira onda da perseguição romana se estendeu
de um período pouco posterior ao incêndio de Roma
até a morte de Nero, em 68 d.C. Sua enorme sede por sangue
o levou a crucificar e queimar vários cristãos cujos
corpos foram colocados ao longo das estradas romanas, iluminando-as,
pois eram usados como tochas. Outros vestidos com peles de animais,
eram destroçados por cães nas arenas. De acordo
com a tradição, tanto Pedro quanto Paulo foram martirizados
na perseguição de Nero: Paulo foi decapitado, e
Pedro foi crucificado de cabeça para baixo.
Entretanto, a perseguição ocorria de maneira esporádica
e localizada. Um imperador podia intensificar a perseguição
por dez anos ou mais; mas um período de paz sempre se seguia,
o qual era interrompido abruptamente quando um governador local
resolvia castigar novamente os cristãos de sua área,
sempre com o aval de Roma. Esse padrão se prolongou por
250 anos.
Tertuliano, escritor cristão do século li, disse:
"O sangue dos mártires é a semente da igreja".
Para surpresa geral, sempre que surgia perseguição,
o número de cristãos a ser perseguido aumentava.
Em sua primeira carta, Pedro encorajou os cristãos a suportar
o sofrimento, confiantes na vitória derradeira e no governo
divino que seria estabelecido em Cristo (lPe 5.8-11). O crescimento
da igreja sob esse tipo de pressão provou, em parte, a
veracidade dessas palavras.
70
Tito destrói Jerusalém
Géssio Floro amava o dinheiro e odiava os judeus. Como
procurador romano, governava a Judéia e pouco se importava
com as sensibilidades religiosas. Quando a entrada de impostos
era baixa, ele se apoderava da prata do Templo. Em 66, quando
a oposição cresceu, ele enviou tropas a Jerusalém
para crucificar e massacrar alguns judeus. A ação
de Floro foi o estopim para uma revolta que já estava em
ebulição havia algum tempo.
No século anterior, Roma não tinha tratado os judeus
de maneira adequada. Primeiramente, Roma havia fortalecido o odiado
usurpador Herodes, o Grande. Apesar de todos os belos edifícios
que construíra, Herodes não conseguiu lugar no coração
das pessoas.
Arquelau, filho de Herodes e seu sucessor-, era tão cruel
que o povo pediu a Roma que lhe desse um alívio. Roma atendeu
a esse pedido enviando diversos governadores: Pôncio Pilatos,
Félix, Festo e Floro. Eles, assim como outros, tinham a
tarefa, nada invejável, de manter a paz em uma terra bastante
instável.
O espírito independente dos judeus nunca morreu. Eles olhavam
com orgulho para os dias dos macabeus, quando se livraram do jugo
de seus senhores sírios. Agora, suas desavenças
mesquinhas e o fabuloso crescimento de Roma os colocavam novamente
sob o comando de mãos estrangeiras.
O clima de revolução continuou durante o governo
de Herodes. Os zelotes e os fariseus, cada um à sua maneira,
queriam que as mudanças acontecessem. O fervor messiânico
estava em alta. Jesus não estava brincando quando disse
que as pessoas falariam: "'Vejam, aqui está o Cristo!'
ou Ali está ele!'". Esse era o espírito da
época.
Foi em Massada (formação rochosa praticamente inexpugnável,
que se eleva próximo ao mar Morto, onde Herodes construiu
um palácio e os romanos ergueram uma fortaleza) que a revolta
judaica teve seu início e um fim trágico.
Inspirados pelas atrocidades de Floro, alguns zelotes ensandecidos
decidiram atacar a fortaleza. Para surpresa de todos, eles a conquistaram,
massacrando o exército romano que estava acampado ali.
Em Jerusalém, o capitão do Templo, quando interrompeu
os sacrifícios diários a favor de César,
declarou abertamente uma rebelião contra Roma. Não
demorou muito para que toda a Jerusalém ficasse alvoroçada,
e as tropas romanas fossem expulsas ou mortas. A Judéia
se revoltou, e a seguir a Galiléia. Por um breve período
de tempo, parecia que os judeus estavam virando o jogo.
Céstio Galo, o governador romano da região, saiu
da Síria com 20 mil soldados. Cercou Jerusalém por
seis meses, mas fracassou, deixando para trás seis mil
soldados romanos mortos e grande quantidade de armamentos que
os defensores judeus recolheram e usaram.
O imperador Nero enviou Vespasiano, general condecorado, para
sufocar a rebelião. Vespasiano foi minando a força
dos rebeldes, eliminando a oposição na Galiléia,
depois na Transjordânia e por fim na Idu-méia. A
seguir, cercou Jerusalém.
Contudo, antes do golpe de misericordia, Vespasiano foi chamado
a Roma, pois Nero morrera. O pedido dos exércitos orientais
para que Vespasiano fosse o imperador marcou o fim de uma luta
pelo poder. Em um de seus primeiros atos imperiais, Vespasiano
nomeou seu filho, Tito, para conduzir a guerra contra os judeus.
A situação se voltou contra Jerusalém, agora
cercada e isolada do restante do país. Facções
internas da cidade se desentendiam com relação às
estratégias de defesa. Conforme o cerco se prolongava,
as pessoas morriam de fome e de doenças. A esposa do sumo
sacerdote, outrora cercada de luxo, revirava as lixeiras da cidade
em busca de alimento.
Enquanto isso, os romanos empregavam novas máquinas de
guerra para arremessar pedras contra os muros da cidade. Aríetes
forçavam as muralhas das fortificações. Os
defensores judeus lutavam durante todo o dia e tentavam reconstruir
as muralhas durante a noite. Por fim, os romanos irromperam pelo
muro exterior, depois pelo segundo muro, chegando finalmente ao
terceiro muro. Os judeus, no entanto, continuaram lutando, pois
correram para o Templo — sua última linha de defesa.
Esse foi o fim para os bravos guerreiros judeus — e também
para o Templo. Josejo, historiador judeu, disse que Tito queria
preservar o Templo, mas os soldados estavam tão irados
com a resistência dos oponentes que terminaram por queimá-lo.
A queda de Jerusalém, essencialmente, pôs fim à
revolta. Os judeus foram dizimados ou capturados e vendidos como
escravos. O grupo dos zelotes que havia tomado Massada permaneceu
na fortaleza por três anos. Quando os romanos finalmente
construíram a rampa para cercar e invadir o local, encontraram
todos os rebeldes mortos. Eles cometeram suicídio para
que não fossem capturados pelos invasores.
A revolta dos judeus marcou o fim do Estado judeu, pelo menos
até os tempos modernos.
A destruição do Templo de Herodes significou mudança
no culto judaico. Quando os babilônios destruíram
o Templo de Salomão, em 586 a.C, os judeus estabeleceram
as sinagogas, onde podiam estudar a Lei de Deus. A destruição
do Templo de Herodes pôs fim ao sistema ‘sacrificai
judeu’ e os forçou a contar apenas com as sinagogas,
que cresceram muito em importância.
Onde estavam os cristãos durante a revolta judia? Ao lembrar
das advertências de Cristo (Lc 21.20-24), fugiram de Jerusalém
assim que viram os exércitos romanos cercar a cidade. Eles
se recusaram a pegar em armas contra os romanos e retiraram-se
para Pela, na Transjordânia.
Uma vez que a nação judaica e seu Templo tinham
sido destruídos, os cristãos não podiam mais
confiar na proteção que o império dava ao
judaísmo. Não havia mais onde se esconder da perseguição
romana.
C. 150
Justino Mártir escreve sua Apologia
O jovem filósofo caminhava junto à costa, sua mente
estava agitada, sempre ativa, buscando novas verdades. Ele estudara
os ensinamentos dos estoicos, de Aristóteles e de Pitágoras;
e, naquele momento, era adepto do platonismo, que prometera uma
visão de Deus aos que sondassem a verdade com profundidade
suficiente. Era isso que o filósofo Justino queria.
Enquanto caminhava, encontrou-se com um cristão, já
idoso. Justino ficou perplexo diante de sua dignidade e humildade.
O homem citou várias profecias judaicas, mostrando que
o caminho cristão era realmente verdadeiro. Jesus era a
verdadeira expressão de Deus.
Esse encontro ocasionou grande mudança na vida de Justino.
Debruçado sobre aqueles escritos proféticos, lendo
os evangelhos e as cartas de Paulo, ele se tornou um cristão
dedicado. Assim, nos últimos trinta anos de sua vida, viajou,
evangelizou e escreveu. Desempenhou um papel muito importante
no desenvolvimento da teologia da igreja, assim como da compreensão
que a igreja tinha de si mesma e da imagem que apresentava ao
mundo.
Praticamente desde o início, a igreja funcionou em dois
mundos: o judeu e o gentío. O livro de Atos dos Apóstolos
registra o lento e, às vezes, doloroso desabrochar do cristianismo
no mundo gentío. Pedro e Estêvão pregaram
aos ouvintes judeus, e Paulo falou aos filósofos atenienses
e aos governadores romanos.
A vida de Justino apresenta muitos paralelos com a vida de Paulo.
O apóstolo era um judeu nascido em área gentia (Tarso);
Justino era um gentio nascido em área judaica (a antiga
Siquém). Eles tinham boa formação e usavam
o dom da argumentação para convencer judeus e gentíos
da verdade de Cristo. Os dois foram martirizados em Roma em razão
de sua fé.
Durante os reinados dos imperadores do século I, por exemplo,
Nero e Domiciano, a igreja se esforçava sobreviver, para
continuar sua tradição e para mostrar ao mundo o
amor de Jesus Cristo. Os não-cristãos viam o cristianismo
como uma seita primitiva, uma ramificação do judaismo
caracterizada por ensinamentos e práticas estranhas.
Em meados do século II, sob o comando de imperadores mais
razoáveis como Trajano, Antonino Pio e Marco Aurélio,
a igreja teve uma nova preocupação: explicar o motivo
de sua existência para o mundo de maneira convincente. Justino
se tornou um dos primeiros apologistas cristãos, ou seja,
um dos que explicavam a fé como sistema racional. Com escritores
que surgiriam mais tarde — como Orígenes e Tertuliano
—, ele interpretou o cristianismo em termos que seriam familiares
aos gregos e aos romanos instruídos de seus dias.
A maior obra de Justino, a Apologia, foi endereçada ao
imperador Antonino Pio (a palavra grega apologia refere-se à
lógica na qual as crenças de uma pessoa são
baseadas). Enquanto Justino explicava e defendia sua fé,
ele discutia com as autoridades romanas por que considerava errado
perseguir os cristãos. De acordo com seu pensamento, as
autoridades deveriam unir forças com os cristãos
na exposição da falsidade dos sistemas pagãos.
Para Justino, toda verdade era verdade de Deus. Os grandes filósofos
gregos haviam sido inspirados por Deus até certo ponto,
mas permaneciam cegos com relação à plenitude
da verdade de Cristo. Desse modo, Justino trabalhou livremente
com o pensamento grego, explicando Cristo como seu cumprimento.
Ele se aproveitou do princípio apresentado pelo apóstolo
João, no qual Cristo é o Logos, a Palavra. Deus
Pai era santo e separado da humanidade maligna, e Justino concordava
com Platão nesse aspecto. Porém, por intermédio
de Cristo, seu Logos, Deus pôde alcançar os seres
humanos. Como o Logos de Deus, Cristo era parte da essência
de Deus, embora separado, do mesmo modo que uma chama se acende
a partir de outra (é por isso que o pensamento de Justino
foi fundamental no desenvolvimento da consciência da igreja
com relação à Trindade e à encarnação).
Contudo, Justino tinha uma linha de pensamento judia que caminhava
com suas inclinações gregas. Era fascinado pelas
profecias já cumpridas. ? possível que isso tenha
nascido no encontro com o idoso à beira-mar. Porém,
ele percebeu que a profecia hebraica confirmou a identidade singular
de Jesus Cristo. Como Paulo, Justino não abandonou os judeus
à medida que se aproximava dos gregos. Em Diálogo
com Trifão, outra grande obra, ele escreve a um judeu,
um conhecido dele, apresentando Cristo como cumprimento da tradição
hebraica.
Além de escrever, Justino viajou bastante, sempre argumentando
a favor da fé. Ele se encontrou com Trifão em Êfeso.
Em Roma, encontrou-se com Marcião, o líder gnóstico.
Em outra ocasião, durante uma viagem a Roma, Justino se
indispôs com um homem chamado Crescendo, o Cínico.
Quando Justino retornou a Roma, por volta do ano 165, Crescendo
o denunciou às autoridades. Justino foi preso, torturado
e decapitado, com outros seis crentes.
Justino escreveu certa vez: "Vocês podem nos matar,
mas não podem nos causar dano verdadeiro". O apologista
apegou-se a essa convicção até a morte. Ao
fazer isso, recebeu o nome que passaria a usar por toda a história:
Justino Mártir.
C. 156
O martírio de Policarpo
O dia estava quente. As autoridades de Esmirna procuravam Policarpo,
o respeitado bispo da cidade. Elas já haviam levado outros
cristãos à morte na arena. Agora, uma multidão
exigia a morte do líder.
Policarpo saíra da cidade e se escondera na propriedade
de alguns amigos, no interior. Quando os soldados entraram, ele
fugiu para outra propriedade. Embora o idoso bispo não
tivesse medo da morte e quisesse permanecer na cidade, seus amigos
insistiram em que se escondesse, talvez com temor de que sua morte
pudesse desmoralizar a igreja. Se esse era o caso, estavam completamente
equivocados.
Quando os soldados alcançaram a primeira fazenda, torturaram
um menino escravo para que revelasse o paradeiro de Policarpo.
Assim, apressaram-se, bem armados, para prender o bispo. Embora
tivesse tempo para escapar, Policarpo se recusou a agir assim.
"Que a vontade de Deus seja feita", decidiu. Em vez
de fugir, deu as boas-vindas aos seus captores, ofereceu-lhes
comida e pediu permissão para passar um momento sozinho
em oração. Policarpo orou durante duas horas.
Alguns dos que ali estavam com a finalidade de prendê-lo
pareciam arrependidos por prender um homem tão simpático.
No caminho de volta a Esmirna, o chefe da guarda tentou argumentar
com Policarpo: "Que problema há em dizer 'César
é senhor' e acender incenso?".
Policarpo calmamente disse que não faria isso.
As autoridades romanas desenvolveram a idéia de que o espírito
(ou o "gênio") do imperador (César) era
divino. A maioria dos romanos, por causa de seu panteão,
não tinha problema em prestar culto ao imperador, pois
entendia a situação como questão de lealdade
nacional. Porém, os cristãos sabiam que isso era
idolatria.
Pelo fato de os cristãos se recusarem a adorar o imperador
ou os outros deuses de Roma e adorar Cristo de maneira silenciosa
e secreta em seus lares, a maioria das pessoas achava que eles
não tinham fé. "Fora com os ateus!", gritavam
os habitantes de Esmirna, enquanto buscavam os cristãos
para prendê-los. Como sabiam apenas que os cristãos
não participavam dos muitos festivais pagaos e não
ofereciam os sacrifícios comuns, a multidão atacava
o grupo considerado ímpio e sem pátria.
Então, Policarpo entrou em uma arena cheia de pessoas enfurecidas.
O procónsul romano parecia respeitar a idade do bispo.
Como Pilatos, queria evitar uma cena horrível, se fosse
possível. Se Policarpo apenas oferecesse um sacrifício,
todos poderiam ir para casa.
— Respeito sua idade, velho homem — implorou o procónsul.
— Jure pela felicidade de César. Mude de idéia.
Diga "Fora com os ateus!".
O procónsul obviamente queria que Policarpo salvasse a
vida ao separar-se daqueles "ateus", os cristãos.
Ele, porém, simplesmente olhou para a multidão zombadora,
levantou a mão na direção deles e disse:
— Fora com os ateus!
O procónsul tentou outra vez:
— Faça o juramento e eu o libertarei. Amaldiçoe
Cristo!
O bispo se manteve firme.
— Por 86 anos servi a Cristo, e ele nunca me fez qualquer
mal. Como poderia blasfemar contra meu Rei, que me salvou?
A tradição diz que Policarpo estudou com o apóstolo
João. Se isso foi realmente verdade, ele era, provavelmente,
o último elo vivo com a igreja apostólica. Cerca
de quarenta anos antes, quando Policarpo começou seu ministério
como bispo, Inácio, um dos pais da igreja, escreveu a ele
uma carta especial. Policarpo escreveu, de próprio punho,
uma carta aos filipenses. Embora não seja especialmente
brilhante e original, essa carta fala sobre as verdades que ele
aprendeu com seus mestres. Policarpo não fazia exegese
de textos do Antigo Testamento, como os estudiosos cristãos
posteriores, mas citava os apóstolos e os outros líderes
da igreja para exortar os filipenses.
Cerca de um ano antes do martírio, Policarpo foi a Roma
para acertar algumas diferenças quanto à data da
Páscoa com o bispo daquela cidade. Uma história
diz que, nessa cidade, ele debateu com o herege Mar-cião,
a quem chamava "o primogênito de Satanás".
Diz-se que diversos seguidores de Marcião se converteram
com sua exposição dos ensinamentos apostólicos.
Este era o papel de Policarpo: ser uma testemunha fiel. Líderes
posteriores apresentariam saídas criativas diante de situações
em constante mutação, mas a era de Policarpo requeria
apenas fidelidade. ? ele foi fiel até a morte.
Na arena, a argumentação continuava entre o bispo
e o procónsul. Em certo momento, Policarpo admoestou seu
inquisidor: "Se você [...] finge que não sabe
quem sou, ouça bem: sou um cristão. Se você
quer aprender sobre o cristianismo, separe um dia e me conceda
uma audiência". O procónsul ameaçou jogá-lo
às feras.
Policarpo disse: "Pois chame-as. Se isto fosse uma mudança
do mal para o bem, eu a consideraria, mas não posso admitir
uma mudança do melhor para o pior".
Ameaçado pelo fogo, Policarpo reagiu: "Seu fogo poderá
queimar por uma hora, mas depois se extinguirá; mas o fogo
do julgamento por vir é eterno".
Por fim, anunciou-se que Policarpo não se retrataria. O
povo de Es-mirna gritou: "Este é o mestre da Ásia,
o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, que
ensina o povo a não sacrificar e a não adorar!".
O procónsul ordenou que o bispo fosse queimado.
Policarpo foi amarrado a uma estaca, e o fogo foi ateado. Contudo,
de acordo com testemunhas oculares, seu corpo não se consumia.
Conforme o relato dessas testemunhas, ele "estava lá
no meio, não como carne em chamas, mas como um pão
sendo assado ou como o ouro e a prata sendo refinados em uma fornalha.
Sentimos o suave aroma, semelhante ao de incenso, ou ao de outra
especiaria preciosa".
Quando um dos executores o perfurou com uma lança, o sangue
que jorrou apagou o fogo.
Este relato foi repassado às congregações
por todo o império. A igreja valorizou esses relatos e
começou a celebrar a vida e a morte de seus mártires,
chegando a coletar seus ossos e outras relíquias. Em 23
de fevereiro, todos os anos, comemoravam o "dia do nascimento"
de Policarpo no Reino celestial.
Nos 150 anos seguintes, à medida que centenas de outros
mártires caminharam fielmente para a morte, muitos foram
fortalecidos pelos relatos do testemunho fiel do bispo de Esmirna.
177
Ireneu se torna bispo de Lião
Até mesmo quanto às heresias, "não há
nada novo debaixo do sol" (Ec 1.9). Os falsos ensinamentos
que surgiram dentro e em torno da igreja permanecem basicamente
os mesmos.
Em vez de se voltar para a obra expiatória de Cristo, muitos
buscam salvar a si mesmos pela descoberta de algum conhecimento
secreto. Isso surgiu na igreja primitiva por meio de um conjunto
de heresias chamado de gnosticismo (gnosis é uma palavra
grega que significa "conhecimento"). Aparentemente,
já existia uma forma de gnosticismo antes da fundação
da igreja. João desfechou um golpe contra esse falso ensinamento,
quando escreveu sua primeira carta. Contudo, essa doutrina ainda
continuou a exercer influência no século o.
Sabemos pouco sobre Ireneu, o homem que se opôs ao gnosticismo
na segunda metade do século n. Nasceu, provavelmente, na
Asia Menor, por volta do ano 125. Em virtude do intenso comércio
entre a Ásia Menor e a Gália, os cristãos
puderam levar a fé àquela região, onde foi
estabelecida uma igreja vigorosa em sua cidade principal, Lião.
Enquanto serviu como presbítero em Lião, Ireneu
viveu de acordo com seu nome, que significa "pacífico",
viajando até Roma para pedir indulgência aos montañistas
da Ásia Menor. Durante essa missão, a perseguição
cresceu em Lião, e o bispo daquela cidade foi martirizado.
Ireneu o sucedeu como bispo em seu lugar e descobriu que o gnosticismo
conseguira algumas conversões na Gália. Essa doutrina
se espalhou facilmente, porque os gnósticos usavam termos
cristãos, embora tivessem interpretações
radicalmente diferentes dessas expressões. A fusão
dos termos cristãos com os conceitos da filosofia grega
e das religiões asiáticas era atraente aos que queriam
acreditar que poderiam salvar a si mesmos, sem depender da graça
do Pai todo-poderoso.
Ireneu estudou as várias formas de gnosticismo. Embora
variassem grandemente, os ensinamentos mais comuns eram os seguintes:
o mundo físico é mau; o mundo foi criado e é
governado por poderes angelicais, e não por Deus; Deus
está distante e não está realmente ligado
a este mundo; a salvação pode ser alcançada
pelo aprendizado de alguns ensinamentos secretos especiais. As
pessoas espirituais — ou seja, os próprios seguidores
do gnosticismo — são superiores aos cristãos
comuns. Os mestres do gnosticismo sustentavam essas idéias
valendo-se dos evangelhos gnósticos
— volumes que normalmente tomavam emprestado o nome de um
apóstolo e retratavam Jesus Cristo ensinando doutrinas
gnósticas.
Quando o bispo de Lião finalmente tomou conhecimento dessa
heresia, escreveu a obra denominada Contra as heresias, um enorme
trabalho no qual buscava revelar a tolice do "falso conhecimento".
Valendo-se tanto do Antigo Testamento quanto do Novo, Ireneu mostrou
que o Deus amoroso criou o mundo, que se corrompeu por causa do
do pecado humano. Adão, o primeiro homem inocente, tornou-se
pecador ao ceder à tentação. Porém,
sua queda foi des-feita — rematada — pela obra do
segundo homem inocente, Cristo, o novo Adão. O corpo não
é mau, e, no último dia, o corpo e a alma dos crentes
ressuscitarão; viverão para sempre com Deus.
Ireneu compreendia que o gnosticismo se valia do desejo humano
de conhecer algo que os outros não conheciam. Com relação
aos gnósticos, escreveu: "Tão logo um homem
é convencido a aceitar a forma da salvação
deles [dos gnósticos], se torna tão orgulhoso com
o conceito e a importância de si mesmo, que passa a andar
como se fosse um pavão". Porém, os cristãos
deveriam humildemente aceitar a graça de Deus, e não
se envolver em exercícios intelectuais que levavam à
vaidade.
Durante toda a sua vida, Ireneu recordou com alegria o fato de
ter sido próximo de Policarpo, que conhecera pessoalmente
o apóstolo João. Desse modo, talvez não seja
surpreendente o fato de Ireneu apelar para a autoridade dos apóstolos,
quando desaprovou as afirmações do gnosticismo.
O bispo destacou que os apóstolos ensinaram em público,
e não guardaram segredo sobre nenhum dos ensinamentos que
receberam do Mestre. Por todo o império, as igrejas concordavam
sobre certos ensinamentos que vieram dos apóstolos de Cristo
e que apenas esses ensinamentos formavam os fundamentos de sua
crença. Ao declarar que os bispos, os sucessores dos apóstolos,
eram os guardiães da fé, Ireneu aumentou o respeito
dispensado aos bispos.
Na obra Contra as heresias, Ireneu apresentou o padrão
para a teologia da igreja: toda a verdade que precisamos está
na Bíblia. Ele também provou ser o maior teólogo
desde o apóstolo Paulo. Suas discussões amplamente
divulgadas foram um golpe mortal para o gnosticismo em sua época.

C. 196
Tertuliano começa a escrever livros cristãos
"O sangue dos mártires é a semente da igreja."
"É certo por ser impossível." "O
que Atenas e Jerusalém têm em comum?"
Frases mordazes como essas eram típicas das obras de Quinto
Septímio Florente Tertuliano — ou simplesmente Tertuliano.
Nativo de Cartago, foi criado em um lar de cultura paga e educado
nos clássicos da literatura, na arte de discursar e em
Direito. Por volta do ano 196, quando voltou seu poderoso intelecto
para os tópicos cristãos, Tertuliano mudou o caráter
do pensamento e da literatura da igreja ocidental.
Até esse ponto, a maioria dos escritores cristãos
usava o grego — uma língua flexível e sutil,
perfeita para filosofar e para discutir ninharias. Os cristãos
de fala grega geralmente aplicavam a propensão filosófica
à sua fé.
Embora Tertuliano, um africano, soubesse grego, preferia escrever
em latim. Suas obras refletem a inclinação romana
para a praticidade e para enfatizar a moral. Esse influente advogado
atraiu muitos outros escritores para sua língua favorita.
Enquanto os cristãos gregos discutiam a divindade de Cristo
e sua relação com o Pai, Tertuliano buscava unificar
a fé e esclarecer a posição ortodoxa. Em
função disso, criou uma fórmula bastante
útil que é usada ainda hoje: Deus é uma única
substância, consistindo em três pessoas.
Ao introduzir a fórmula o que se tornou a doutrina da Trindade,
Tertuliano extraiu sua terminologia não dos filósofos,
mas dos tribunais romanos. A palavra latina substantia não
significava "material", mas carregava a idéia
de "direito à propriedade". A substantia de Deus
era o seu "torrão", por assim dizer. A palavra
persona não significava "pessoa", do modo como
usamos a palavra. Ela se referia a uma das partes na ação
legal. Conforme esse uso, o termo permite que seja concebível
que três personae pudessem compartilhar a mesma substantia.
Três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) compartilham
uma substância (a soberania divina).
Embora Tertuliano tivesse perguntado "o que Atenas [a filosofia]
e Jerusalém [a igreja] têm em comum?", a filosofia
estoica, bastante popular em sua época, causou grande influência
na vida de Tertuliano. Alguns dizem que a idéia do pecado
original passou do estoicismo para Tertuliano e depois para a
igreja ocidental. Tertuliano parece ter pensado que, de alguma
maneira, a alma era material: assim como o corpo é formado
pela concepção, o mesmo acontece com a alma. O pecado
de Adão é passado adiante como um traço genético.
A igreja ocidental passou a defender essa idéia, mas isso
não aconteceu com a igreja do oriental (que assumiu visão
mais otimista da natureza humana).
Por volta do ano 206, Tertuliano deixou a igreja para se juntar
aos montañistas, grupo de "puristas" que reagiu
contra o que consideravam uma frouxidão moral entre os
cristãos. Eles esperavam que a Segunda Vinda acontecesse
logo e passaram a ressaltar a liderança imediata do Espírito
Santo, e não a do clero ordenado.
Embora Tertuliano tivesse começado a enfatizar a idéia
da sucessão apostólica — a passagem do poder
e da autoridade apostólica aos bispos —, ficou perturbado
pela afirmação dos bispos de que tinham poder para
perdoar pecados. Ele acreditava que isso levaria à frouxidão
moral, assim como afirmou que isso se tratava de grande presunção
por parte dos bispos. Além do mais, pensava, não
seriam todos os crentes sacerdotes? Seria a igreja formada por
santos que dirigiam a si mesmos ou uma turba de santos e pecadores
administrados por uma "classe" profissional, o clero?
Tertuliano lutava contra forças poderosas. Por mais de
1 200 anos, o clero teria um lugar especial. Somente depois de
Martinho Lutero ter desafiado a igreja é que "o sacerdócio
de todos os crentes" foi defendido outra vez.
C. 205
Orígenes começa a escrever
Em seus primeiros dias, o cristianismo foi criticado como uma
religião de pobres e iletrados, pois, na verdade, muitos
dos fiéis vinham das classes mais humildes. Como Paulo
escreveu, na igreja "poucos eram sábios segundo os
padrões humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de
nobre nascimento" (I Co 1.26).
No século ni, porém, o maior intelectual da época
era cristão. Pagãos, hereges e cristãos admiravam
Orígenes. Sua instrução e conhecimento vastos
contribuíram muito para o futuro da cultura cristã.
Orígenes nasceu em Alexandria, por volta do ano 185, filho
de pais cristãos devotos. Por volta do ano 201, seu pai,
Leónidas, foi preso durante a perseguição
de Septímio Severo. Orígenes escreveu ao pai, que
estava na prisão, e o encorajou a não negar a Cristo
por amor à família. Embora Orígenes quisesse
se entregar às autoridades e sofrer o martírio com
pai, sua mãe escondeu suas roupas e impediu esse ato zeloso,
mas tolo.
Depois do martírio de Leónidas, sua propriedade
foi confiscada e sua viúva foi deixada com sete filhos.
Orígenes tomou as providências para sustentá-los,
ensinando literatura grega e copiando manuscritos. Uma vez que
muitos dos estudiosos mais idosos fugiram para Alexandria na época
da perseguição, a escola catequé-tica cristã
tinha grande necessidade de professores. Aos dezoite anos, Orígenes
tornou-se presidente da escola
e deu início à sua longa carreira de professor,
estudioso e escritor.
Praticava a ascese, passava grande parte das noites em estudo
e em oração, dormia no chão duro, nos poucos
momentos em que realmente conciliava o sono. Seguia o mandamento
de Jesus, pois tinha apenas uma capa e não possuía
sapatos. Chegou até mesmo a seguir literalmente Mateus
19.12: ele se castrou como defesa contra as tentações
carnais. O maior desejo de Orígenes era ser fiel à
igreja e honrar o nome de Cristo.
Como escritor extremamente prolífico, Orígenes foi
capaz de manter sete secretários ocupados com seus ditados.
Ele produziu cerca de duas mil obras, incluindo comentários
sobre quase todos os livros da Bíblia, além de centenas
de homílias. A obra Héxapla foi uma façanha
da crítica textual, pois tentou encontrar a melhor versão
grega do Antigo Testamento. Em seis colunas paralelas, era possível
observar o A.T. em hebraico, uma transliteração
para o grego, três traduções em grego e a
Septuaginta. A obra Contra Celso foi um dos mais importantes trabalhos
apologéticos do cristianismo, pois o defendeu dos ataques
pagaos. A obra De principiis [Sobre os princípios] foi
a primeira tentativa de criar uma teologia sistemática.
Nela, Orígenes examina cuidadosamente as crenças
cristãs referentes a Deus, a Cristo e ao Espírito
Santo, bem como assuntos referentes à Criação,
à alma, ao livre-arbítrio, à salvação
e às Escrituras.
Orígenes foi, em grande parte, responsável pelo
estabelecimento da interpretação alegórica
das Escrituras, que dominaria a Idade Média. Acreditava
que em todo o texto existiam três níveis de significado:
o literal, o moral (que servia para edificar a alma) e o alegórico
ou espiritual, considerado oculto é o mais importante para
a fé cristã. O próprio Orígenes desprezou
o significado literal e o histórico-gramatical do texto,
enfatizando o significado alegórico mais profundo.
Orígenes tentou relacionar o cristianismo à ciência
e à filosofia de seus dias. Acreditava que a filosofia
grega era a preparação para a compreensão
das Escrituras e usava a analogia, mais tarde adotada por Agostinho,
de que os cristãos "despojaram os egípcios",
quando usaram a riqueza do conhecimento pagão na causa
cristã (Êx 12.35,36).
Ao aceitar os ensinamentos da filosofia grega, Orígenes
adotou muitas idéias platônicas, estranhas ao cristianismo
ortodoxo. A maioria de seus erros era causada pela pressuposição
grega de que a matéria e o mundo material são intrínsecamente
maus. Acreditava na existência da alma antes do nascimento
e ensinava que a posição de alguém no mundo
era conseqüência de sua conduta em um estado preexistente.
Negava a ressurreição física e advogava que,
no final de tudo, Deus salvaria todos os homens e todos os anjos.
Uma vez que Deus não podia criar o mundo material sem entrar
em contato com a matéria básica, o Filho foi eternamente
gerado pelo Pai que, por sua vez, criou o mundo eterno. Segundo
ele, foi somente a humanidade de Jesus que morreu na cruz, como
pagamento feito ao Diabo em resgate pelo mundo.
Devido a equívocos como esses, o bispo Demetrio de Alexandria
convocou o concilio que excomungou Orígenes. Embora Roma
e a igreja ocidental tivessem aceitado a excomunhão, a
igreja da Palestina e a maior parte do Oriente não a aceitaram.
Eles continuaram consultando Orígenes devido à sabedoria,
à erudição e ao conhecimento que ele possuía.
Durante a perseguição promovida por Décio,
Orígenes foi preso, torturado e condenado a morrer em uma
estaca. Somente a morte do imperador impediu que a sentença
fosse executada. Com a saúde debilitada devido à
provação, Orígenes morreu por volta do ano
251. Ele fez mais do que qualquer outra pessoa para promover a
causa da erudição cristã e para fazer com
que a igreja fosse respeitada aos olhos do mundo. Os pais da igreja
posteriores a ele, tanto do Oriente quanto do Ocidente, sentiram
sua influência. A diversidade de seu pensamento e de seus
escritos lhe rendeu a reputação de ser o pai da
ortodoxia, bem como das heresias.
251
Cipriano escreve Unidade da igreja
Que relação existe entre os membros da igreja e
seus líderes? De que maneira a igreja pode disciplinar
os membros? Essas são questões que a igreja deve
abordar em qualquer época.
Em meados do século m, as respostas a essas perguntas foram
proferidas por Cipriano, que possuíra muita riqueza e nascera
pagão em uma família culta, por volta do ano 200.
Quando se tornou cristão, renunciou ao seu estilo de vida,
doou seus bens e o dinheiro aos pobres e assumiu o voto de castidade.
Com relação à sua conversão, escreveu:
"O segundo nascimento fez de mim um novo homem por meio do
Espírito soprado do céu".
Professor de retórica e orador famoso, o eloqüente
e devoto Cipriano destacou-se entre os membros da igreja, tornando-se
bispo de Cartago por volta do ano 248.
Embora tivesse conhecimento dos clássicos gregos e romanos,
Cipriano não era teólogo. De modo diferente de Tertuliano,
a quem admirava, Cipriano era um homem prático que se importava
pouco com as disputas teológicas de seus dias. Ele simplesmente
queria a unidade da igreja. Em uma igreja bem desunida, buscou
unir os cristãos por meio da autoridade dos bispos.
O imperador romano Décio perseguira os cristãos,
e alguns negaram sua fé. Décio não procurava
fazer mártires, porque sabia que o martírio simplesmente
chamava mais a atenção para o cristianismo. Em vez
de matar os cristãos, os torturava, na esperança
de que dissessem "César é Senhor". Os
que se rendiam e proferiam essa declaração passaram
a ser conhecidos como lapsi.
Os cristãos que se mantinham firmes, denominados "confessores",
normalmente desaprovavam os lapsi. Desse modo, o concilio de bispos
estabeleceu regras rígidas em relação à
readmissão dos crentes proscritos na igreja. Diante dessa
disciplina, um sacerdote chamado Novato deu início a uma
igreja rival que oferecia admissão fácil aos lapsi.
Embora não tivesse sofrido por causa de sua fé,
Cipriano não conseguia suportar a divisão. Acreditava
que os cristãos dedicados deveriam passar pela penitência
para provar sua fé. A penitência era composta de
um período de tristeza verdadeira, depois do qual a pessoa
poderia participar novamente da ceia do Senhor. Depois de o penitente
ter "cumprido seu tempo", ele comparecia diante da congregação
vestido de saco e coberto de cinzas para que os bispos pronunciassem
o perdão. Cipriano via isso como um sistema graduado: quanto
mais grave fosse o pecado, mais penitência a pessoa precisava
cumprir. Sua idéia tornou-se popular e passou a ser um
dos mais poderosos — e, às vezes, mais abusivos —
métodos de disciplina da igreja.
No ano 251, Cipriano convocou o Concilio de Cartago e leu Unidade
da igreja, seu trabalho principal, que teve profunda influência
sobre a história da igreja. A igreja, conforme argumentou,
é uma instituição divina — a noiva
de Cristo — e somente pode haver uma noiva. Somente na igreja
as pessoas poderiam alcançar a salvação;
fora dela, há somente escuridão e confusão.
Fora da igreja, os sacramentos e os pastores — e até
mesmo a Bíblia — não tinham importância.
O indivíduo não poderia viver a vida cristã
em contato direto com Deus; ele precisava da igreja. Uma vez que
Cristo estabelecera a igreja sob autoridade de Pedro, a Pedra,
Cipriano disse que todos os bispos eram, em certo sentido, sucessores
de Pedro e, portanto, deveriam ser obedecidos. Embora não
declarasse que o bispo de Roma estava acima dos outros, Cipriano
via o episcopado como especial em razão da conexão
de Pedro àquela cidade.
Afirmações de Cipriano como "Fora da igreja
não há salvação" e "Ninguém
pode ter Deus como Pai se não tiver a igreja como mãe"
encorajavam as pessoas a dar aos bispos lugar de grande importância.
O bispo era capaz de determinar quem podia fazer parte da igreja,
o que, com efeito, é o mesmo que ter o poder de dizer:
"Você está salvo; você não está
salvo". Em vez de confiar na obra do Espírito Santo
por meio da igreja como um todo, Cipriano deixou implícito
que o Espírito Santo trabalhava por meio dos bispos.
Os bispos, naturalmente, ganharam poder com a disseminação
dessas idéias. Cipriano também promoveu a idéia
de que a missa era o sacrifício do sangue e do corpo de
Cristo. Uma vez que os sacerdotes agiam como representantes de
Cristo, oferecendo novamente o sacrifício em todos os cultos
de adoração, isso somente serviu para lhes aumentar
o poder.
Cipriano morreu durante a perseguição do imperador
Valeriano. Pelo fato de ter se recusado a oferecer sacrifícios
aos deuses pagaos, o bispo de Cartago foi decapitado em 258.
A igreja da época de Cipriano, caracterizada pela desunião,
apegou-se às suas idéias. O bispo não poderia
ter previsto as conseqüências dos meios pelos quais
procurou manter a igreja unida. Na Idade Média, alguns
homens incrivelmente gananciosos e imorais exerceriam o ofício
de bispo, usando-o em benefício próprio, em vez
de cuidar dos assuntos espirituais. A estrutura hierárquica
que criou a "união", também provocou uma
enorme divisão entre o clero e os leigos.
270
Antão começa sua vida de eremita
Continua...
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E bons estudos.
GUERREIROS DE DAVI
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